Viver é uma das dádivas mais bonitas, sentir o
vento sobre meus cabelos loiros, o cheiro da brisa de Nova York, se deparar com
o por do sol todos os dias, acreditar num amanha bonito e cheio de novas
oportunidades é o que me impulsiona a seguir em frente, sempre obtive tudo o
que eu quis, pois, meus pais nunca deixaram me faltar nada, talvez eu seja um
pouco mimada, mas, isso não significa que eu deixo de lutar pelo o que eu quero.
Volto de mais uma das festas extravagantes da casa de Lívia, como seus pais
vivem viajando ela sempre organiza algo chamando toda a galera da faculdade.
Retorno para casa como na
maioria das noites, um pouco tarde, passo por uma das avenidas principais da
cidade admirando seus enormes edifícios de vidro, Nova York a noite é
simplesmente formidável, além de ser considerada umas das cidades mais
populosas do mundo, seus arranha céus coloridos e gigantescos tornam a cidade
mais exuberante, observo o movimento de pessoas que ainda trafegam na madrugada
fresca, os bares, cafés, lanchonetes ainda possuem um burburinho notável. Ao
chegar em casa Estaciono meu carro na garagem, batendo a porta com força,
praguejo baixinho, pelo estrondo que a mesma soa, caminho devagar procurando
não fazer barulho, abro a enorme porta da entrada, vendo uma luz mais ao longe,
conforme vou caminhando pela espaçosa sala me deparo com a porta da biblioteca
entreaberta, observo com bastante cautela próxima do sofá bege, pois, meus pais
não costumam ficarem acordados tão tardiamente.
Caminho compassadamente pelo
piso amadeirado tentando amortecer os sons dos meus saltos. À medida que me
aproximo ouço alguns buchichos, encosto minha orelha próxima a porta, ouvindo
uma conversa bastante estranha entre mamãe e papai.
-Estela meu amor, será pelo
próprio bem de nossa filha.
-Afonso não sei como ela irá
reagir ao saber de tudo. -Eu saber de tudo o que? Arregalo meus olhos verdes,
começando a ficar bastante curiosa sobre o assunto debatido por eles.
-Precisamos ter calma, a
situação na qual nós encontramos está gravemente insustentável.
-Eu entendo meu bem, mas,
tomar essa medida sem consultar Aurora, a deixará transtornada, você a conhece,
sabe o quanto ela tem um gênio difícil.
-Aurora é muito mimada, terá
que aceitar minhas condições pelo seu próprio bem. - Não me aguento,
infiltrando o ambiente bastante estupefata.
-O que eu terei que aceitar
papai? – Os dois se assustam, não esperando minha aparição.
-A quanto tempo estava atrás
da porta? –Ele passa sua mao sobre seus cabelos que começam a tingir de branco
com ar de preocupação.
-Tempo suficiente, para
compreender que os dois estão me escondendo alguma coisa;
-Filha, tenha calma, não é
pra tanto; -Mamãe como sempre com seu jeito doce, tenta apaziguar a agitação;
-Como não mamãe, o que vocês
tanto conversam e ainda por cima de madrugada, o que está acontecendo? –Instigo
os dois com olhar de revolta.
-Acho melhor você se sentar;
-Ordena papai alisando seu cavanhaque. Observo as expressões de ambos,
sentando-me ao sofá da biblioteca. Como qualquer outro espaço nosso recinto é
aglomerado de estantes de livros, além de possuir uma mesa que papai passa
horas a fio analisando documentos da empresa, possui duas poltronas e um jogo
de sofá da cor preta ao centro.
-Bem,
podem começar.
-E difícil o que vamos te
falar, mas, saiba que se fizemos essa escolha foi para o bem de todos; - Ouço tudo
não entendendo porque ele esta dando tantas voltas;
-Papai seja mais direto.
–Ele troca um olhar com mamãe que permanece com os braços cruzados sobre seu
corpo delgado, tornando a olhar para mim.
-Estamos enfrentando um
problema financeiro, bastante árduo, nossa empresa, não esta nada bem, eu e sua
mãe pegamos até dinheiro emprestado com o
banco, para tentar contornar a situação, mas, não adiantou estamos endividados
exacerbadamente;
-O que quer dizer com isso?
Que eu terei que parar de estudar? Que terei que procurar trabalho é isso? Não porque se for eu farei, o senhor sabe que
eu não largo meu curso por nada;–Começo a ficar alterada;
-Não, ao contrario, você
terá que se casar;
-E o que? Vocês ficaram
loucos? –Levanto-me imediatamente não acreditando no que acabo de ouvir.
-Vocês só podem estar
brincando, como me escondem uma coisa tão seria, desde quando a empresa tem
estado irreparável? Desde quando vocês arrumam um casamento pra mim sem me
consultar primeiro? O que acham que eu sou?
-Filha, por favor, tente
compreender; -Mamãe se aproxima com delicadeza.
-Compreender?
-Basta Aurora. –Papai altera
sua voz. –Se não te contamos foi porque não quisemos preocupa-la, temos muitas
dividas a liquidar desde o banco, funcionários, impostos, sua faculdade que não
é nada barata, seus gastos supérfluos, e diversos outros encargos;
-Ah agora vocês estão me
culpando é isso?
-Alguém mencionou que você é
culpada? Você irá casar com o Senhor Foster e não se fala mais nisso.
-Não posso acreditar que
você papai esteja me vendendo de uma maneira tão baixa pro primeiro que
aparece, pois, saiba que eu não me casarei com nenhum de seus amiguinhos ricos,
não sou um negócio resolva você mesmo o problema que criou; -Retiro-me passando
pelo corredor subindo a escada com os olhos cheio d´gua, ouço mamãe me gritar
vindo atrás de mim bastante preocupada, tranco a porta do meu quarto desejando
desaparecer.
-Aurora, por favor, vamos
conversar com calma filha; -Sua voz fina e abafada brada do lado de fora.
-Saia daqui mamãe, deixe-me
sozinha; - Grito me jogando sobre minha cama, com o coração estraçalhado, como
eles podem querer me obrigar a casar com um homem desconhecido para liquidar
suas dividas mal planejadas. Deixo as lágrimas fluírem, sentindo bastante raiva
das palavras que papai jogou em minha cara.
Tenho uma noite agonizante,
custo pegar ao sono, acordando no dia seguinte muito pra baixo, recordo-me da
ocasião anterior, desejando que tudo não passasse de um pesadelo. Levanto-me
para realizar minha higiene olhando as horas no meu relógio assentado a meu
criado mudo, desligo meu abajur que até então não havia percebido que estava
aceso, abro minhas cortinas brancas de frente a minha cama seguindo para o
banheiro que fica a esquerda. Depois de um banho quente, adentro meu closet
decidindo colocar uma calça jeans e uma camisa branca de botões da cor de
perola, para ir para a faculdade. Ainda em meu closet aproximo do enorme
espelho que possui um pequeno armário que guardo meus objetos e cosméticos,
passo uma leve maquiagem para tapar um pouco a palidez e o rosto marcado pela
choradeira de ontem. Desço a escada passando direto para a porta principal.
-Aurora aonde pensa que vai?
–Vejo papai já vestido com seu terno sobre seu corpo avantajado.
-Bom dia pra você papai,
como pode ver eu estou indo para a faculdade. –Exclamo continuando meu
percurso;
-Volta aqui ainda não
terminamos nossa conversa.
-Pois eu sim; - Não dou
ouvidos a ele indo para a garagem, entro ao meu carro prata bastante
enraivecida com sua ideia mirabolante de me obrigar a casar com um sujeito
desconhecido.
Assim, que trafego a pista
de Nova York, encaro um enorme engarrafamento, odeio ter que ficar andando
devagar, observo então o céu essa manha, um pouco nublado e abafado indicando a
aproximação do outono, noto ao meu lado um homem bastante charmoso de cabelos
grandes castanhos claros, barba cerrada, vestido elegantemente com um terno,
fico esbabacada com tanta beleza, me espanto com os carros atrás de mim que
começam a buzinarem freneticamente, imediatamente coloco o carro em movimento,
perdendo o cara de vista, afasto meus pensamentos maléficos seguindo para a
Universidade. Chego ao estacionamento dando de cara com Lívia, como sempre ela
deixa seus cabelos ruivos soltos, uniformizada com seus belos vestidos.
-Oi Aurora o que achou da
festa ontem?
-Oi amiga, foi magnífica,
divertida como todas as outras; -Procuro me animar um pouco.
-O que foi aconteceu alguma
coisa? –Ela enlaça seu braço fino junto ao meu, seguindo para a entrada da
faculdade;
-Bem sim... Obtive mais um
desentendimento com papai, só que dessa vez ele exagerou totalmente;
-O que ele fez?
-Ele simplesmente quer que
eu me case com sei lá quem, para tirar a empresa do buraco.
-Aurora meu Deus, você não
aceitou não é?
-Claro que não, com certeza
deve ser um velho babão, nossa só de pensar eu me arrepio; - Reviro os olhos ao
imaginar a situação; Lívia começa a sorrir da expressão facial que faço.
-Mudando de assunto você
notou que o Josh não tirava os olhos de você; -Ela pronuncia muito empolgada;
-Ah não sei não Lívia, você
sabe como é o Josh, ele nunca leva ninguém a sério e além do mais, não quero
ser mais uma na sua lista, não quero perder minha virgindade com um cara que se
acha o incrível pegador;
-Pelo jeito será o velho
babão que adquirirá essa façanha. –Ela não se contém sorrindo demasiadamente;
-Não ouse falar nisso, quero
esquecer esse absurdo, preciso pensar em alguma coisa, não posso aceitar essa
imposição de papai, tem que haver outro jeito e eu tenho que descobrir;
-Você sabe que pode contar
comigo;
-Eu sei, eu amo você; - Digo
a abraçando, enfim nos separamos, pois, fazemos cursos diferentes, eu curso
veterinária, enquanto Lívia cursa direito, nos conhecemos nas reuniões que eram
realizadas pelos nossos pais uma vez ou outra, desde então uma amizade sincera
tem se formado entre nós;
Entro na minha sala trombando
com os demais acadêmicos que começam a ocupar seus lugares, sento-me no mesmo
lugar de todos os dias, a segunda carteira da terceira fileira. Tenho mais uma
aula com o professor Franchesco, o famoso italiano que arranca suspiros das
meninas pelo seu belo sotaque, depois de quatro aulas, decido voltar para a
casa para encarar a realidade, chego encontrando papai e mamãe almoçando, na
sala que fazemos nossas refeições.
-Boa tarde. –Exclamo
receosa;
-Arrume-se magnífica para
hoje à noite, pois, senhor Foster virá conhecê-la; - Papai exclama limpando o
canto da boca com o guardanapo. Deixo minha bolsa cair ao chão, recusando-me a
acreditar nesse absurdo.
-Não, sinceramente vocês não
podem estar falando sério. Mamãe faça alguma coisa. –Imploro desesperada;
-Eu sinto muito filha;
-Não, vocês não sentem.
–Subo a escada correndo muito revoltada com os dois,