terça-feira, 31 de maio de 2016

Viver é uma das dádivas mais bonitas, sentir o vento sobre meus cabelos loiros, o cheiro da brisa de Nova York, se deparar com o por do sol todos os dias, acreditar num amanha bonito e cheio de novas oportunidades é o que me impulsiona a seguir em frente, sempre obtive tudo o que eu quis, pois, meus pais nunca deixaram me faltar nada, talvez eu seja um pouco mimada, mas, isso não significa que eu deixo de lutar pelo o que eu quero. Volto de mais uma das festas extravagantes da casa de Lívia, como seus pais vivem viajando ela sempre organiza algo chamando toda a galera da faculdade.
Retorno para casa como na maioria das noites, um pouco tarde, passo por uma das avenidas principais da cidade admirando seus enormes edifícios de vidro, Nova York a noite é simplesmente formidável, além de ser considerada umas das cidades mais populosas do mundo, seus arranha céus coloridos e gigantescos tornam a cidade mais exuberante, observo o movimento de pessoas que ainda trafegam na madrugada fresca, os bares, cafés, lanchonetes ainda possuem um burburinho notável. Ao chegar em casa Estaciono meu carro na garagem, batendo a porta com força, praguejo baixinho, pelo estrondo que a mesma soa, caminho devagar procurando não fazer barulho, abro a enorme porta da entrada, vendo uma luz mais ao longe, conforme vou caminhando pela espaçosa sala me deparo com a porta da biblioteca entreaberta, observo com bastante cautela próxima do sofá bege, pois, meus pais não costumam ficarem acordados tão tardiamente.
Caminho compassadamente pelo piso amadeirado tentando amortecer os sons dos meus saltos. À medida que me aproximo ouço alguns buchichos, encosto minha orelha próxima a porta, ouvindo uma conversa bastante estranha entre mamãe e papai.
-Estela meu amor, será pelo próprio bem de nossa filha.
-Afonso não sei como ela irá reagir ao saber de tudo. -Eu saber de tudo o que? Arregalo meus olhos verdes, começando a ficar bastante curiosa sobre o assunto debatido por eles.
-Precisamos ter calma, a situação na qual nós encontramos está gravemente insustentável.
-Eu entendo meu bem, mas, tomar essa medida sem consultar Aurora, a deixará transtornada, você a conhece, sabe o quanto ela tem um gênio difícil.
-Aurora é muito mimada, terá que aceitar minhas condições pelo seu próprio bem. - Não me aguento, infiltrando o ambiente bastante estupefata.
-O que eu terei que aceitar papai? – Os dois se assustam, não esperando minha aparição.
-A quanto tempo estava atrás da porta? –Ele passa sua mao sobre seus cabelos que começam a tingir de branco com ar de preocupação.
-Tempo suficiente, para compreender que os dois estão me escondendo alguma coisa;
-Filha, tenha calma, não é pra tanto; -Mamãe como sempre com seu jeito doce, tenta apaziguar a agitação;
-Como não mamãe, o que vocês tanto conversam e ainda por cima de madrugada, o que está acontecendo? –Instigo os dois com olhar de revolta.
-Acho melhor você se sentar; -Ordena papai alisando seu cavanhaque. Observo as expressões de ambos, sentando-me ao sofá da biblioteca. Como qualquer outro espaço nosso recinto é aglomerado de estantes de livros, além de possuir uma mesa que papai passa horas a fio analisando documentos da empresa, possui duas poltronas e um jogo de sofá da cor preta ao centro.
-Bem, podem começar.           
-E difícil o que vamos te falar, mas, saiba que se fizemos essa escolha foi para o bem de todos; - Ouço tudo não entendendo porque ele esta dando tantas voltas;
-Papai seja mais direto. –Ele troca um olhar com mamãe que permanece com os braços cruzados sobre seu corpo delgado, tornando a olhar para mim.
-Estamos enfrentando um problema financeiro, bastante árduo, nossa empresa, não esta nada bem, eu e sua mãe pegamos até dinheiro emprestado  com o banco, para tentar contornar a situação, mas, não adiantou estamos endividados exacerbadamente;
-O que quer dizer com isso? Que eu terei que parar de estudar? Que terei que procurar trabalho é isso?  Não porque se for eu farei, o senhor sabe que eu não largo meu curso por nada;–Começo a ficar alterada;
-Não, ao contrario, você terá que se casar;
-E o que? Vocês ficaram loucos? –Levanto-me imediatamente não acreditando no que acabo de ouvir.
-Vocês só podem estar brincando, como me escondem uma coisa tão seria, desde quando a empresa tem estado irreparável? Desde quando vocês arrumam um casamento pra mim sem me consultar primeiro? O que acham que eu sou?
-Filha, por favor, tente compreender; -Mamãe se aproxima com delicadeza.
-Compreender?
-Basta Aurora. –Papai altera sua voz. –Se não te contamos foi porque não quisemos preocupa-la, temos muitas dividas a liquidar desde o banco, funcionários, impostos, sua faculdade que não é nada barata, seus gastos supérfluos, e diversos outros encargos;
-Ah agora vocês estão me culpando é isso?
-Alguém mencionou que você é culpada? Você irá casar com o Senhor Foster e não se fala mais nisso.
-Não posso acreditar que você papai esteja me vendendo de uma maneira tão baixa pro primeiro que aparece, pois, saiba que eu não me casarei com nenhum de seus amiguinhos ricos, não sou um negócio resolva você mesmo o problema que criou; -Retiro-me passando pelo corredor subindo a escada com os olhos cheio d´gua, ouço mamãe me gritar vindo atrás de mim bastante preocupada, tranco a porta do meu quarto desejando desaparecer.
-Aurora, por favor, vamos conversar com calma filha; -Sua voz fina e abafada brada do lado de fora.
-Saia daqui mamãe, deixe-me sozinha; - Grito me jogando sobre minha cama, com o coração estraçalhado, como eles podem querer me obrigar a casar com um homem desconhecido para liquidar suas dividas mal planejadas. Deixo as lágrimas fluírem, sentindo bastante raiva das palavras que papai jogou em minha cara.
Tenho uma noite agonizante, custo pegar ao sono, acordando no dia seguinte muito pra baixo, recordo-me da ocasião anterior, desejando que tudo não passasse de um pesadelo. Levanto-me para realizar minha higiene olhando as horas no meu relógio assentado a meu criado mudo, desligo meu abajur que até então não havia percebido que estava aceso, abro minhas cortinas brancas de frente a minha cama seguindo para o banheiro que fica a esquerda. Depois de um banho quente, adentro meu closet decidindo colocar uma calça jeans e uma camisa branca de botões da cor de perola, para ir para a faculdade. Ainda em meu closet aproximo do enorme espelho que possui um pequeno armário que guardo meus objetos e cosméticos, passo uma leve maquiagem para tapar um pouco a palidez e o rosto marcado pela choradeira de ontem. Desço a escada passando direto para a porta principal.
-Aurora aonde pensa que vai? –Vejo papai já vestido com seu terno sobre seu corpo avantajado.
-Bom dia pra você papai, como pode ver eu estou indo para a faculdade. –Exclamo continuando meu percurso;
-Volta aqui ainda não terminamos nossa conversa.
-Pois eu sim; - Não dou ouvidos a ele indo para a garagem, entro ao meu carro prata bastante enraivecida com sua ideia mirabolante de me obrigar a casar com um sujeito desconhecido.
Assim, que trafego a pista de Nova York, encaro um enorme engarrafamento, odeio ter que ficar andando devagar, observo então o céu essa manha, um pouco nublado e abafado indicando a aproximação do outono, noto ao meu lado um homem bastante charmoso de cabelos grandes castanhos claros, barba cerrada, vestido elegantemente com um terno, fico esbabacada com tanta beleza, me espanto com os carros atrás de mim que começam a buzinarem freneticamente, imediatamente coloco o carro em movimento, perdendo o cara de vista, afasto meus pensamentos maléficos seguindo para a Universidade. Chego ao estacionamento dando de cara com Lívia, como sempre ela deixa seus cabelos ruivos soltos, uniformizada com seus belos vestidos.
-Oi Aurora o que achou da festa ontem?
-Oi amiga, foi magnífica, divertida como todas as outras; -Procuro me animar um pouco.
-O que foi aconteceu alguma coisa? –Ela enlaça seu braço fino junto ao meu, seguindo para a entrada da faculdade;
-Bem sim... Obtive mais um desentendimento com papai, só que dessa vez ele exagerou totalmente;
-O que ele fez?
-Ele simplesmente quer que eu me case com sei lá quem, para tirar a empresa do buraco.
-Aurora meu Deus, você não aceitou não é?
-Claro que não, com certeza deve ser um velho babão, nossa só de pensar eu me arrepio; - Reviro os olhos ao imaginar a situação; Lívia começa a sorrir da expressão facial que faço.
-Mudando de assunto você notou que o Josh não tirava os olhos de você; -Ela pronuncia muito empolgada;
-Ah não sei não Lívia, você sabe como é o Josh, ele nunca leva ninguém a sério e além do mais, não quero ser mais uma na sua lista, não quero perder minha virgindade com um cara que se acha o incrível pegador;
-Pelo jeito será o velho babão que adquirirá essa façanha. –Ela não se contém sorrindo demasiadamente;
-Não ouse falar nisso, quero esquecer esse absurdo, preciso pensar em alguma coisa, não posso aceitar essa imposição de papai, tem que haver outro jeito e eu tenho que descobrir;
-Você sabe que pode contar comigo;
-Eu sei, eu amo você; - Digo a abraçando, enfim nos separamos, pois, fazemos cursos diferentes, eu curso veterinária, enquanto Lívia cursa direito, nos conhecemos nas reuniões que eram realizadas pelos nossos pais uma vez ou outra, desde então uma amizade sincera tem se formado entre nós;
Entro na minha sala trombando com os demais acadêmicos que começam a ocupar seus lugares, sento-me no mesmo lugar de todos os dias, a segunda carteira da terceira fileira. Tenho mais uma aula com o professor Franchesco, o famoso italiano que arranca suspiros das meninas pelo seu belo sotaque, depois de quatro aulas, decido voltar para a casa para encarar a realidade, chego encontrando papai e mamãe almoçando, na sala que fazemos nossas refeições.
-Boa tarde. –Exclamo receosa;
-Arrume-se magnífica para hoje à noite, pois, senhor Foster virá conhecê-la; - Papai exclama limpando o canto da boca com o guardanapo. Deixo minha bolsa cair ao chão, recusando-me a acreditar nesse absurdo.
-Não, sinceramente vocês não podem estar falando sério. Mamãe faça alguma coisa. –Imploro desesperada;
-Eu sinto muito filha;

-Não, vocês não sentem. –Subo a escada correndo muito revoltada com os dois,